Blog de César Garcia


DEUS

                                                                                C.G. 9.6.17

Ou pior, como diz o outro... Se Deus existisse. Em todos os eventos de sofrimento da humanidade Ele está presente como o único responsável ou pelo menos como cúmplice. Pertencem ao primeiro caso os terremotos, inundações, secas, furacões, pragas de insetos, epidemias e demais fenômenos naturais; ao segundo, as desgraças cometidas pelos humanos, tais como guerras, assaltos, homicídios, corrupção, estupros e outros crimes que só ocorrem porque Ele, o todo-poderoso, o onipresente, o fodão, não intervém, não impede, assiste passivamente a tudo como se estivesse diante de um passatempo, como se a Terra fosse Sua TV. Sua numerosa quadrilha que atua entre nós difunde a perniciosa ideia de que somos livres, temos “livre arbítrio”, como gostam de dizer, e, portanto, cometemos crimes porque queremos, porque temos prazer em cometê-los. Como podemos ter livre arbítrio se nada acontece no universo sem o Seu consentimento?

 Os ateus dizem que Deus foi criado pelos homens. Que homens? Se era para criar um deus perfeito, infinitamente melhor do que os que já existiam, por que criaram um com todos os defeitos de homem? Mal humorado, exerce um poder infinito, castiga Seus filhos com uma vida cheia de sofrimentos e ainda diz que muitos são os convidados, mas poucos são os escolhidos; que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus; que nós já nascemos com um pecado; que os pecadores vão arder no fogo do inferno por toda a eternidade; que o prazer é pecado e que só o sofrimento garante a entrada no céu. (Estou misturando o que disse o Pai com o que disse o Filho porque Este disse que são um só.) Os homens podiam ter criado um deus paciente, atencioso, solidário, generoso, dedicado, tolerante, ou até podiam ter criado uma deusa. Seria meio caminho andado, mas não, preferiram criar este monstro que governa o universo e ainda se mete em nossas vidas, julgando nossos menores atos. Os homens perguntam: por que, Deus, sofremos tanto, com fome, com frio, com doenças, humilhações, perseguições, violência e, sobretudo com angústia, sem explicação para tantas perguntas e com uma única certeza: nossa morte. Somos até chamados de mortais para distinguirmo-nos de um só imortal, Tu. Se foste criado por nós, mortais, devias ser como nós. Em vez disso, criaram-te imortal, eterno, talvez para que Te admirássemos mais e tivéssemos a quem recorrer quando nos sentíssemos abandonados, derrotados, fracassados, decepcionados. Quem recorre a Ti, tem sempre a esperança de ser ouvido e atendido embora isto jamais ocorra. Nunca um ser humano deixou de morrer. Os cemitérios estão cheios de ossos e hoje os cadáveres são queimados porque já não há espaço para sepulturas e, mesmo assim, estes seres que não encontram nada pronto na natureza para seu consumo continuam esperando por Tua ajuda. És frio, cruel, insensível.

Deus: aqueles que, ao contrário, não creem na Tua existência, consideram que não há a quem recorrer. Que esta é a condição fundamental de nossa vida: nenhuma mão que nos erga. Contamos apenas com nossas próprias forças; com elas chegamos onde estamos e com elas seguiremos nosso destino. Tua quadrilha e todo o rebanho que a acompanha, iludem-se julgando contar com Tua ajuda. Triste engano. Gastaram suas energias andando em círculo com discussões estéreis, causadoras de mais sofrimento, ódio e violência. Quanto mais altas as catedrais, mais sangue foi derramado, mais cruéis as torturas impostas às mulheres e aos homens que não obedeciam à Tua quadrilha. Enquanto isso, teus papas devassos e degenerados acumulavam riqueza, poder e glória. Pregavam a pobreza e viviam como nababos. Diziam seguir as palavras de um judeu autoproclamado filho de Deus, portador de mensagem, segundo ele mesmo, enviada por seu pai, ninguém menos que o Deus dos judeus, com uma novidade: dali em diante os homens deviam amar-se uns aos outros, mais que a si próprios. Fez milagres como ainda hoje fazem os vigaristas em seus imensos templos, multiplicou pães e peixes, ressuscitou morto, transformou água em vinho e foi crucificado entre dois ladrões. Sabe-se que as multidões gostam mais de sermões incompreensíveis do que de palestras que estejam ao seu alcance. Quanto mais louco o discurso, mais admirado o orador. Assim somos nós, depois de uma adesão pelo caminho dos sentimentos em meio ao desespero. Assim aconteceu com outros loucos que vieram depois e ainda hoje acontece, particularmente no terreno da religião e da política. A campanha iniciada por seus seguidores foi tão eficaz que se espraiou pelo mundo e ainda hoje faz sucesso. As ideias não são as mesmas, pois à medida que faziam sucesso os pregadores organizaram-se em igrejas, arrecadaram montanhas de dinheiro e construíram um império como nunca se viu. Afastaram-se dos pobres e dividiram o poder com os ricos da nobreza. Viveram muitos séculos deste modo, até que algumas revoluções ameaçaram seu poder e então voltaram a procurar os sofredores, os pobres. As camadas médias da sociedade acharam bonito e aprovaram, já que não viam nenhum perigo de grandes transformações a partir do paquiderme em que se havia tornado o império do Vaticano. Ainda hoje, em imensas e luxuosas igrejas, teus sacerdotes criticam a riqueza e dizem defender os pobres. Talvez os fieis não se revoltem nem abandonem ou incendeiem os templos porque não dão a mínima importância ao que ouvem; talvez nem cheguem a ouvir o que é despejado sobre suas cabeças por meio de potentes sistemas de som; outros não entendem, mas acreditam que aquelas sejam as palavras de seu Deus misteriosamente bondoso. São “os desígnios de Deus”; “Ele escreve certo por linhas tortas”. É assim que o rebanho resolve o conflito em suas cabeças. Por falar em rebanho, esta palavra é despudoradamente usada em sermões e textos ditos sagrados. São isto, os fiéis: um rebanho; e Tu, ou Teu representante, és o pastor. “O Senhor é meu pastor e nada me faltará”... E até na hora do enterro: “Segura na mão de Deus e vai”... E o rebanho vai, tão forte é a fantasia do Paraíso, do Reino de Deus.

 

Ah, meus semelhantes, vocês precisam mesmo desta fantasia? É como se vocês não se conformassem com a morte. A morte põe um fim em nossa vida, é o ponto final de nossa história. É triste, mas não poderia ser de outra forma. Temos de morrer, a morte é uma necessidade. Nascer não é preciso, morrer é indispensável. É assim também com os animais. Só temos uma vida, com prazer e sofrimento. Aproveitemos o prazer e suportemos o sofrimento.



Escrito por César Garcia às 16h38
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Eu sei, vou morrer.

C.G. 6.6.17

Vou morrer sem ter conseguido encontrar uma síntese explicativa da existência humana, ou seja: vou morrer como todo mundo. Os maiores êxitos foram conseguidos pelos filósofos (Platão, Sócrates, Aristóteles, Kant, Hegel, Schopenhauer, Spinosa, Nietzsche, Sartre e outros) sem que tenha havido acordo entre eles. Bastaria encontrar uma explicação satisfatória para a recusa da morte pelos seres humanos. Por que não queremos morrer? Por que não podemos decidir sobre nosso nascimento? (Sileno disse a Midas que “melhor seria não nascer, mas já que nasceu é melhor morrer cedo”. Por que a morte nos angustia? Por que isto só acontece com nossa espécie? Por que não aceitamos o mundo como ele é? Além do esforço dos filósofos, multidões tentaram encontrar respostas cuja aceitação exigiu a renúncia da razão. Melhor do que nada, dizem os crentes de todas as religiões.

A formação da consciência na espécie humana parece ter sido algo inesperado, imprevisto, arriscado, perigoso. Por que não aconteceu também com outras espécies? Poderá ainda acontecer? Que animal acordará um dia percebendo que existe e que vai morrer? Um chimpanzé, uma mosca, algum verme? Seja qual for, sentirá angústia daí em diante. Desejará mudar o mundo para torná-lo mais de acordo com suas necessidades, como fazemos nós. Eles, chimpanzés, moscas e vermes, estão satisfeitos com o mundo, pois encontram nele tudo de que precisam. Nós, não. O mundo não está pronto para nós. Temos que construir nossas habitações, produzir nossos alimentos e mais um milhão de materiais que achamos necessários para uma vida melhor. Nada está pronto para o nosso consumo. E nada disso é feito em paz, sem conflitos. Não sabemos viver em paz. Matamo-nos uns aos outros pela posse de territórios, recursos naturais, conhecimento, ideias e até fantasias religiosas.

 

“É dolorosa, a vida humana,” diz Fedra na peça de Moisés Neto (Três tristes gregas). O pranto e as lágrimas deformam nosso rosto e expressam mais que nada nosso sofrimento. Por isso precisamos tanto de gozo, prazer e alegria ainda que escassos e efêmeros. E assim a vida segue, com altos e baixos. Nietzsche garante que do sofrimento podemos extrair bons resultados e Sspinosa nos aconselha a buscar encontros que nos alegrem. Sêneca lembra que não importa o tamanho da vida e sim a sua qualidade. Assim, a morte deixa de ser uma tragédia. Mas é preciso ter cuidado com as escolhas. Muitas são como armadilhas: prometem tudo para depois da morte, em um mundo que não existe, desde que renunciemos a nossa relativa liberdade, a nossa limitada razão.



Escrito por César Garcia às 16h18
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ERRO INEVITÁVEL?

3.5.17

 

A ditadura militar brasileira que começou em abril de 1964 durou 21 anos. A luta pela volta à democracia teve início desde os primeiros instantes e cresceu sempre, envolvendo de um lado estudantes, jornalistas, políticos, religiosos, professores, gente do povo, e, de outro, as forças armadas, as polícias militares, a polícia civil, empresários. Embora houvesse gente de todas essas categorias nos dois lados, a divisão não deixa de ser verdadeira. As medidas autoritárias adotadas pelos que depuseram o governo não cessaram de multiplicar-se e de se tornarem cada dia mais sufocantes. Esta escalada de brutalidade estimulou grupos de jovens a buscarem o caminho da luta armada para derrotar os militares. Nesses grupos as ideias socialistas foram rapidamente assimiladas e a influência dos movimentos revolucionários de outros países os fez adotar como objetivo não apenas a volta à democracia, mas a implantação de um regime socialista caso chegassem ao poder. Assim criou-se a mais estúpida utopia da história do Brasil que levou à prisão, tortura, morte e exílio de muitos militantes, na maioria jovens que deixaram seus cursos universitários pelo fascínio da grande aventura.

 

Trinta anos após o fim da ditadura, somamos à dor pela perda de amigos e parentes a vergonha pela crença em ideias sem fundamento. Crença capaz de levar homens e mulheres pais de crianças a pegar em armas para derrotar as forças armadas brasileiras. Não lutaram apenas pelo fim da ditadura. Lutaram para tomar o poder e transformar a estrutura política, o sistema econômico, o regime de propriedade, a estrutura social, tudo. Uma revolução como outras que haviam ocorrido no mundo. Ascensão do proletariado ao poder. Os proletários não sabiam, mas eles lutavam em seu nome.

 

 

Por que não fomos capazes de ver que se tratava de uma fantasia é a pergunta que até hoje se agarra sem resposta completa à reflexão dos que percebem o erro que cometeram.



Escrito por César Garcia às 16h41
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CINQUENTA ANOS

 

                                 27.3.2014

 

 

Faz hoje cinquenta anos que peguei um avião Comet da Britsh Airways para Santiago do Chile. Sexta-feira da Paixão, quatro dias antes do golpe de 1964, portanto. Fugi a tempo ou foi coincidência? Na companhia de dois colegas da SUDENE, fui participar do curso de planejamento econômico do ILPES, de abril a dezembro, instituto criado pela CEPAL para formar pessoal de toda a América Latina visando à aplicação das técnicas de planejamento ali desenvolvidas. Nosso esquerdismo indo além do pensamento cepalino, não nos permitia confiar inteiramente no sucesso da receita que iríamos aprender com Oswaldo Sunkel, Pepe Ibarra, Manuel Figueroa e muitos outros cujos nomes já se apagaram da minha memória. Poucas semanas após o início do curso, chegou Celso Furtado que nos recebeu para uma conversa de uns quarenta minutos em que disse: "é coisa para dez anos". Fez palestra no curso e se foi para a França. Depois chegaram Jáder de Andrade, Estevam Strauss e Francisco Oliveira.

 

Nas eleições presidenciais, Allende foi derrotado pela terceira vez. Perdi o dinheiro que apostei em sua vitória em Valparaiso. Seis anos depois, ele ganharia e governaria até 1973 quando tirou a própria vida dentro do Palacio de La Moneda, sede do governo, bombardeado pelo exército chileno comandado por Pinochet, o ditador sanguinário. Foi o fim das ilusões de quem acreditava na implantação de uma economia socialista por um governo eleito democraticamente.

 

Chegando em dezembro de 64 ao Brasil, tive medo de voltar para a SUDENE. Parei em São Paulo e fui apresentado ao Sr. Witacker, dirigente da hidroelétrica de Urubupungá, em construção. Fui ao canteiro de obras e conheci a casa em que iria morar. Viajei então a Fortaleza para ver minha família e aguardar um telegrama e as passagens. Nunca chegaram, pois toda a direção da empresa foi demitida pelos militares. Resolvi voltar à SUDENE, discretamente. Voltei e lá fiquei até 1971 quando consegui  bolsa do governo belga para estudar na Universidade de Louvain onde permaneci até 1974.

 


 



Escrito por César Garcia às 18h35
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                                     CAPANGA

 

De certo modo, nunca estou sozinho, pois cada vez que decido fazer algo surge-me a dúvida se devo realmente ir em frente ou esperar um momento mais oportuno; se não seria melhor fazer outra coisa ou apenas descansar; se vai me custar muito dinheiro; se aquilo corresponde realmente a uma necessidade etc. Não chego a ouvir vozes, mas às vezes falo sobre as vantagens e desvantagens de cada alternativa. É minha forma de refletir para evitar arrependimentos e as possibilidades são tão diferentes que não parecem sair da cabeça de uma mesma pessoa. Se quisesse, poderia até dar um nome diferente do meu a esta entidade que sempre me contradiz com a boa intenção de ajudar-me a evitar precipitações. Agora mesmo, apaguei uma palavra mal escolhida e usei precipitações. Ficou melhor. Poderia dar-lhe o nome de Sombra, Fantasma, Espectro. Muito assombroso. Supereu, Superego, muito acadêmico. Encosto, Companheiro, Amigo, Ajudante, Capanga. Bom, ele agora me diz que isto não tem importância e pode ficar para depois.



Escrito por César Garcia às 18h01
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QUEM SÃO OS MELHORES?

 

 

            Os ricos, no seu afã de ganhar dinheiro, investem em fazendas, fábricas e lojas que precisam de trabalhadores para a produção. Assim vivem os pobres: trabalhando no sistema econômico para garantir seu sustento. O Estado oferece serviços gratuitos e um sistema de proteção visando oferecer aos pobres o que eles não podem comprar com os salários que recebem. Nos países menos desenvolvidos há, mesmo assim, uma grande proporção de pobres que vivem mal, em habitações precárias, mal mobiliadas, sem conforto, sem alimentação adequada. Há também desemprego e atividades mal remuneradas.

            A classe média, composta de empresários menores, executivos de grandes empresas, servidores públicos e profissionais liberais, tem opinião dividida sobre a necessidade de mudar tudo isso para melhorar a vida dos pobres. Além dos indiferentes, há os que atribuem a pobreza à preguiça, ao desinteresse, à falta de vontade de vencer e à passividade do povo. De outro lado, os solidários, os politizados, os que põem toda a responsabilidade na estrutura da Economia e na insuficiência do apoio do Estado aos mais necessitados. Sentindo-se culpados por não conseguirem uma solução para o problema que se arrasta desde a Antiguidade, dedicam grande parte de sua energia à discussão política, à atuação em partidos ditos populares. Esta solidariedade chegou ao auge no fim do século XIX quando Karl Marx erigiu um monumento teórico destinado a orientar a ação de um partido revolucionário cuja meta era nada menos que derrotar o poder do Estado burguês e implantar a ditadura do proletariado que seus seguidores chamavam de democracia popular. Na Rússia, Lênin e seus intelectuais formaram esse partido e disseram aos operários miseráveis: este é o vosso partido; entrai e fazei a revolução. Eles entraram, pegaram em armas e derrotaram o Estado Czarista. Depois de esperar setenta anos, o povo foi à rua e disse que estava cansado de tanta violência, truculência, atraso, mentiras, corrupção e medo. O sistema foi abaixo e a onda espalhou-se por todo o mundo. Ressurgiu uma classe proprietária mais corrupta do que a antiga e a Rússia reconstrói sua economia de mercado a duras penas com desemprego, alcoolismo e prostituição. Quando a ex-presidente do Brasil foi à TV elogiar um partido comunista, parecia estar participando de uma peça de teatro, logo ela que foi comunista e depois comandou uma economia de mercado das mais pujantes do mundo em meio à crise em que se encontravam tantos países ricos.

            Seria necessário lembrar outros exemplos, mas o leitor pode fazer isso sozinho e chegar à conclusão a que cheguei: a solidariedade aos pobres é um equívoco. Nunca deu o resultado prometido. Apenas aplaca a consciência culpada dos críticos da sociedade, transformando-os em heróis pelo que sofrem nas prisões e pela vida que perdem nesse confronto. A verdadeira luta é feita pelos que precisam melhorar suas condições materiais de vida e quando eles querem lutar não precisam de líderes oriundos de outras classes nem de revoluções, eles vão à rua e exigem mudanças que só são atendidas na medida em que o sistema econômico é capaz de atender. Os políticos, que precisam de votos para permanecer no poder, às vezes cedem demagogicamente e aprovam medidas que exigem impostos cada vez mais altos sabendo que parte desses recursos é desviada pela corrupção. Os sindicatos, também corruptos e aparelhados pelos partidos políticos, capitalizam as conquistas e servem de trampolim para os cargos na administração e no parlamento.

 

            Um filósofo pedia luz, mais luz, hoje devíamos pedir mais sinceridade, menos arrogância, menos hipocrisia. 



Escrito por César Garcia às 23h32
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“A perversidade senil não se torna boa e bela porque é apoiada pela juventude; ela não ganha direito à vida, nem é digna de ser amada ­– ainda que a juventude derrame tragicamente seu sangue por ela.” 

A frase é de Thomas Mann em seu belo livro PENSADORES MODERNOS, Expressava sua preocupação com o Nazismo que nacia, mas aplica-se perfeitamente ao Brasil na década de 1970 e agora, por incrível que pareça, em pleno século XXI.



Escrito por César Garcia às 21h44
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CONTO

QUEM   FOI  ELE

C.G. 21.11.16

Já vivera mais de oitenta anos e a morte estava próxima, mas não lhe passou pela cabeça a idéia de que ela chegaria em poucos segundos. As pernas ainda obedeciam quando queria atravessar uma rua ou até subir em um ônibus. O sinal estava fechado para os pedestres e ele aguardou no meio fio. Um pequeno vulto partiu da calçada oposta e o velho, numa fração de segundo, decidiu evitar a desgraça: deu dois grandes passos como há muito não fazia, segurou com a mão direita o pulso da menina e sacudiu-a em direção à calçada. A criança voou e o velho, com o esforço despendido, caiu de bruços na frente da roda dianteira de um caminhão. Esmagado, os transeuntes se juntaram em torno dele. Um achou que o velho queria dizer algo. Aproximou o ouvido da boca ensanguentada e pensou ter escutado: “Adeus, angústia.” Perguntou: quem é o senhor? Percebeu o último suspiro do velho e disse olhando para cima: morreu.

Não podendo esperar a chegada do SAMU, foi para casa, impressionado. A mulher perguntou: que houve? Respondeu: ele disse adeus angústia, foram suas últimas palavras. A lágrima, cai não cai, desceu junto ao nariz. Cresceu a aflição da mulher: fala logo, pelo amor de Deus. Um velho. Que velho? Não sei, mas ele disse que agora sabia quem era. Perguntei, mas não respondeu, morto, com a boca cheia de sangue. Nem vi mais a menina, foi levada logo, talvez tenha se machucado um pouco na queda sobre a calçada, mas teria morrido se ele não a jogasse longe. Mas, por que ele teria dito aquilo? O quê? Já disse, adeus... Não sei se porque tinha salvado uma criança da morte ou porque viu que ia morrer. Será que a gente só sabe quem é na hora da morte? Antes, não?  Deus sabe, disse a mulher, chorando. Besteira, tem Deus não, tem é velho, menina, caminhão e asfalto.

Na hora de dormir, a pergunta voltou: esse velho, quem foi ele? Preciso saber. Não pode ser rico nem poderoso, se fosse, a notícia já tinha saído na TV. Vou procurar saber no SAMU, na polícia, na casa dele. Talvez alguém me dê o endereço. No SAMU, perguntaram se era parente. Não, não era. Então não é possível. Na polícia, tinha que fazer um requerimento. Fez. No outro dia, recebeu a informação: rua tal, número tal, apartamento tal. Foi lá, falou com o porteiro. Ele morreu atropelado, o senhor não soube? Me disseram que a roda do caminhão quebrou todas as costelas dele, dava pra ver o coração ainda pulando, muito sangue, coisa horrível, não gosto nem de pensar. Era um homem muito bom, calmo, vivia só. A empregada dele está aí, no apartamento. Não vinha ninguém visitar ele, só no fim do ano aparecia um homem que dizia ser filho, trazia presente. O senhor é jornalista? Não. Posso falar com a empregada dele? Vou ligar, mas penso que ela prefere descer e falar com o senhor aqui embaixo.

Bom dia. Bom dia, que é que o senhor deseja? Queria muito saber algumas informações sobre esse senhor que morreu. De onde é o senhor? Daqui mesmo, moro em outro bairro. Mas por que o senhor quer saber? Nada importante, eu só queria conhecer um pouco seu patrão, ele morreu na minha frente, eu ouvi suas últimas palavras. E o que foi que ele disse? “Adeus, angústia.” Só isso? Só, disse e morreu. Bem, ele dizia que tinha sido professor, mas não trabalhava mais, há muito tempo tinha se aposentado. Vivia lendo os livros dele e riscando com uma caneta amarela. Quase só saía para comprar livro, ir ao médico, supermercado. O filho só vinha no Natal, parecia com ele. Quê mais? Só, é só o que eu sei. Onde mora o filho dele? Sei não senhor. E onde ele dava aula? Sei não, mas ouvi dizer que saiu no jornal. Tudo bem, muito obrigado. De nada.

A empregada tem razão, algum jornal deve ter levantado informações. Esse velho tinha alguma coisa especial que entrou na minha cabeça. Preciso saber pelo menos que disciplina ensinava, que tipo de livros lia. Com isso talvez eu descubra de onde ele tirou essa frase ou essa idéia. Frente a frente com a morte: “Adeus, angústia”. Foi a uma banca e comprou o jornal mais popular, cheio de sangue, fumaça, crimes. Encontrou a notícia de dez linhas, sem foto, com a preciosa informação do nome do filho do velho, dono de loja no centro da cidade. Pegou um táxi e foi pensando no que ia dizer ao homem. Ensaiou alguns inícios e escolheu este:

Bom dia, o senhor não me conhece, estava junto do seu pai quando ele foi atropelado. Ele me disse algumas palavras que talvez eu não tenha compreendido bem. Que palavras? “Adeus angústia.” Que é que tem? Nada, eu queria apenas lhe dizer porque ele era seu pai, podia ser que o que ele disse fosse importante para o senhor, significasse algo especial. Não, ele falava pouco comigo, só no Natal. Soube que ele era professor, professor de quê? De Filosofia. Ah! De Filosofia! É, por quê? Deve ser por isso que ele disse aquelas palavras misteriosas. O filho quase riu e disse: É, pode ser...

Saiu pensando na própria morte. Está longe? Está perto? Acidente? Doença prolongada? Sei pouco sobre a morte. Talvez ninguém saiba muito, porque para saber é preciso morrer. Só sei que ela virá. Desde que nasci, a cada dia chego mais perto. Só sei isso. Nada que fiz na vida poderá evitar que esse dia chegue e não é porque eu não seja rico. Os ricos podem adiar um pouco, mas não escapam. Um dia, morrem. Passam a vida preocupados com seus negócios, talvez só raramente pensem na morte. Eu penso muito. De tanto pensar, já perdi o medo e se me angustio não é com ela, mas com os anos que me restam. Gostaria de ter alguém junto a mim na hora para ouvir minha despedida: adeus angústia.

 

 

 

 



Escrito por César Garcia às 12h10
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HEIDEGGER

Eis que angústia e morte interpenetram-se: a angústia nos coloca face a face com a morte; é através dela que podemos nos ver como seres-para-a-morte. O homem, projetando sua própria morte, deve assumir-se como ser finito e, com isso, transcender da faticidade, do impessoal, da inautenticidade para a existência autêntica.




Escrito por César Garcia às 12h02
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MENSAGEM

Gostei da pergunta do francês

                                                  

                               C.G. 27.3.16

        Recebi de uma amiga, mensagem em que ela me diz que um intelectual francês fez-lhe esta pergunta:

"Por que os brasileiros não fazem uma campanha nacional de boicote à Rede Globo e ao jornal O Globo?"

 Perguntou por delicadeza, pois poderia pensar e pode mesmo ter pensado: “há algo errado neste horror à Rede Globo uma vez que se trata da emissora mais popular do Brasil”. Posso até pensar que existe um grão de ironia na pergunta, mas vamos supor que ele não conheça os índices de audiência das emissoras da Rede Globo. Se soubesse, talvez nem fizesse a inteligente pergunta. Compreenderia logo que a satanização da Rede tem tudo a ver com o viés lulo-petista do que acontece atualmente no Brasil. É provável que ele não conheça estes nomes: Odebrecht, Queiroz Galvão, Andrade Gutierrez, Mendes Júnior, OAS, Camargo Correia, Engevix, Dalton Avancini; tampouco tenha ouvido falar em Paulo Roberto Costa, Nestor Cerveró, Renato Duque, Pedro Barusco, Jorge Zelada; nem Alberto Youssef, Fernando Baiano, João Santana, Mônica Moura; nem mesmo Delúbio Soares, João Vaccari, José Dirceu, José Carlos Bumlai, Eduardo Cunha, Delcides Amaral, Renan Calheiros, Fernando Collor e se o francês não tiver muito interesse pela política brasileira talvez não saiba muito a respeito de Lula e Dilma. Não saiba da intimidade que há entre Lula e a Odebrecht; que Fábio Luís Lula da Silva enriqueceu da noite para o dia durante o governo do pai; que Lula impôs Dilma como candidata, pessoa sem controle emocional, sem competência para exercer o cargo de presidente, com o único objetivo de, quatro ou oito anos depois (de preferência quatro), voltar ao poder; que Dilma nunca foi capaz de negociar seus projetos com o Congresso; que a política econômica de seu governo estancou o crescimento (em 2015, o PIB diminuiu 3,8%); o Brasil foi rebaixado pelas três mais importantes instituições de estudo dos riscos econômicos; fez voltar a inflação de quase 10%, reduziu a taxa de investimento que já era baixa (20%) em comparação com o resto do mundo, manteve a participação do Brasil no mercado mundial em pouco mais de 1% e aumentou a taxa de desemprego.

        Pode ser que o francês não saiba que a gigantesca Petrobras teve em 2015 um prejuízo de quase 35 bilhões de reais; que uma ação que chegou a custar R$ 50,00 caiu este ano para R$ 5,00; que o assalto aos seus cofres chega a 42 bilhões de reais; que o pré-sal, anunciado por Lula como uma descoberta que levaria o Brasil à posição de maior produtor de petróleo do mundo, mal começou a ser explorado em razão da queda do preço do barril de 120 para 35 dólares; que a Copa do Mundo, festejada por lula, deixou elefantes brancos, obras inacabadas e uma terrível decepção para o povo brasileiro; que as Olimpíadas vão no mesmo caminho, (eventos que consumiram bilhões de reais, com superfaturamentos e falhas de planejamento); que a dívida pública brasileira vem crescendo nos últimos anos e já representa 65 % do PIB (acima de 50% a economia está em perigo); que, finalmente, grande parte do dinheiro roubado da Petrobras foi usado para financiar campanhas eleitorais do PT, do PP, do PMDB e outros partidos.

        Não sei se o francês sabe que já são 82 os réus acusados de corrupção por um juiz independente que pôs fim à crença brasileira de que rico não ia para a cadeia; que entre estes está o presidente da maior empreiteira do país; que todos os canais de televisão têm acompanhado e noticiado as colaborações premiadas que deixam Lula, Dilma e a cúpula do PT de cabelos em pé; que, sem argumentos, os lulo-dilma-petistas têm atacado o juiz como se fosse ele o criminoso. Isto lembra o homem que, ao descobrir que a mulher o traíra no sofá da casa, tocou fogo no sofá...

Gostaria de dizer ao francês que Dilma este ano enviou ao Congresso uma proposta de orçamento com um rombo de 30 bilhões de reais. Acredito que este seja um caso inédito no mundo. Ele não deve saber o que significa pedalada, palavra que ficou incorporada ao nosso vocabulário depois que Dilma mandou os bancos públicos repassarem dinheiro que não tinham recebido do governo, coisa proibida expressamente na legislação.

        Bem, eu soube de tudo isso pela Rede Globo e poderia ter sabido por outros canais, mas quando quero ouvir noticiários, prefiro a Globo e a Globo News por possuírem maiores recursos e melhores repórteres. Excelentes debates, ricas interpretações têm sido apresentadas por economistas e cientistas políticos nas duas emissoras. Para outros assuntos, procuro o Art 1, o Curta, a Globo Sat, a Futura, o Canal Brasil, Cultura, 5 Monde etc. Não pretendo encontrar a verdade em nenhum canal, pois é até difícil saber se existe uma verdade. Em literatura, diz-se que a recepção faz parte da obra. Então, julgo que há muito exagero na condenação da Globo. Mas os brasileiros gostam de encontrar um satanás responsável por tudo que não lhes agrada. As pessoas que se consideram membros da esquerda pretendem saber de informações que só elas sabem e por isso têm sempre a verdade em suas mãos, mesmo que todos os noticiários digam o contrário. Imaginam que as empresas são antros do mal onde se planeja o inferno para os pobres. Ora, tudo que os pobres desejam é um emprego nesses antros que possam lhes garantir um salário e outros benefícios sociais.

         A esquerda brasileira parece não gostar de viver num país com economia de mercado. Ela parece preferir que o Estado decida tudo, seja dono de tudo e diga o que o povo deve pensar, comprar, vender. Basta ver seu entusiasmo, seu amor pela ditadura dos irmãos Castro, em Cuba. O PT já tentou várias vezes controlar os meios de comunicação; Dilma achou até que podia baixar a taxa de juro na hora em que ela quisesse, ou reduzir a conta de luz como se a produção de energia não tivesse seus custos. Ela parece não fazer a menor ideia do modo como funciona um sistema econômico. Tem um comportamento semelhante ao de uma criança: não pode, mas eu quero. Ainda adolescente, quis derrubar a ditadura com um fuzil na mão; talvez quisesse, quem sabe, acabar com essa história de mercado e implantar um Estado com tudo planejado ao gosto dela. Não leu nada; nem Economia nem História. Foi esta figura que Lula nos impôs duas vezes. Na segunda, dividiu o país entre bons e maus. Bons, naturalmente, são os seus seguidores. Lula é um indivíduo primário, sem cultura, com a mente estruturada no meio sindical, ambiente onde as virtudes cívicas não costumam florescer. Sua liderança popular baseia-se na simpatia, na ousadia e na habilidade com as metáforas. O prestígio que adquiriu fez-lhe bem e fez-lhe mal. Elogiado no mundo inteiro, está vendo agora tudo desmoronar em consequência da arrogância que lhe subiu à cabeça. Seu vocabulário ao telefone mostrou claramente o estado em que ele fica ao ver que nem todos os seus desejos podem ser satisfeitos. Meramente instintivo, adoraria ter todo o poder nas mãos para distribuir sua própria justiça. José Dirceu, admirador de Stalin, tem o mesmo defeito, apenas recoberto por pretensas ideias marxistas. Mas Dirceu não está sozinho. Muita gente na Europa e na América Latina juntou ideias marxistas com virtudes cristãs criando o que chamo de esquerda nobre. Esta esquerda situa-se em grande parte na classe média, mas afirma dar prioridade aos direitos dos pobres e até fala mal da classe a que pertence. Marilena Chauí disse que tem “ódio à classe média”. Lula, que não pertence à esquerda nobre, disse sonhar com um país de classe média. Trata-se de uma expressão de sua ignorância, mas pelo menos foi mais honesto.

        E assim, o Brasil caminhou irresponsavelmente para o impasse em que se encontra. Tudo indica que a saída vai ser o impeachment de Dilma e a formação de um governo com Michel Temer como presidente até 2018. Não fico tranquilo porque não sei até onde vai a loucura dos lulo-petistas. Basta lembrar a afirmação de Lula: o João Pedro Stédile pode “botar seu exército na rua”. Se isto acontecer e as polícias militares não derem conta, as forças armadas irão tentar pôr as ruas em ordem. Não acredito que elas queiram mais do que isto.

        Se eu tivesse o endereço do francês, enviar-lhe-ia estas mal traçadas que resumem o que penso da nossa situação hoje. Talvez ele fizesse várias outras perguntas, menos esta que pus no título. A resposta à pergunta que ele fez, se ainda há necessidade de dizer é: a esquerda nobre, incluindo os lulo-petistas, já não vê a Rede Globo, ela já faz seu boicote. Mesmo assim, a audiência da Rede é a maior do país e o povo brasileiro, mesmo sabendo que a Globo nem sempre tem razão, não deixa de sintonizá-la. A esquerda nobre adoraria poder selecionar o que o povo deve ver e ouvir e o que não deve. E faz passeatas para defender a democracia! Meu querido francês: seu povo já lutou muito em defesa da liberdade e ainda hoje não abre mão dela, nem diante do cul-de-sac em que se encontra.

 

 



Escrito por César Garcia às 12h22
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CONTRAMÃO

                                                               21.3.16

 

Sou aquele homem que foi avisado pelo celular: “na estrada em que você está, há um louco dirigindo na contramão”. Respondi: um, não; há muitos, um bando de loucos! A sorte é que se tratava de uma estrada pouco trafegada, em que todos me conheciam e eu tinha a pretensão de conhecê-los ainda melhor. Eram amigos com algo em comum: uma fé inabalável em suas convicções. Ascendi os faróis, buzinei, liguei o pisca alerta, sem nenhum resultado. Compreendi que eles não queriam ver nem ouvir. Não queriam ou não podiam, não sei bem. Resolvi parar no acostamento e ficar apreciando a passagem deles em alta velocidade, confiantes, desprezando todos os sinais que só eu via. Pensando em alertar meus pobres amigos acenei com uma flanela vermelha, foi pior. Riam, tocavam as buzinas e agitavam as mãos. Impotente, tentava imaginar uma forma de explicar-lhes que embora não vissem nada, mais adiante, a estrada havia sido interrompida por um abismo formado pela erosão que começara após o transbordamento de um riacho, seguido de chuvas muito pesadas. Na velocidade em que eles deslocavam-se, eu estava seguro de que não teriam tempo de pisar no freio. Cairiam todos no monstruoso buraco, de onde não poderiam sair facilmente e até poderiam morrer. Recorri às redes sociais, ditas capazes de mobilizar multidões, mas alguns me responderam grosseiramente. Compreendi que elas são boas para mobilizar, porém nada podem fazer para desmobilizar. Recebi uma única mensagem sobre a divulgação da existência do abismo. Dizia que um canal de televisão já tinha noticiado, mas ninguém lhe  dava crédito. Desisti. Entrei no meu carro e dirigi com cuidado pelo acostamento. De vez em quando passava um retardatário, e eu nem ligava mais: quer morrer, pois morra. Neste momento, vi pelo retrovisor um carro vindo no sentido em que eu dirigia. Criei de repente um novo ânimo e senti um alívio. Não estava sozinho! Logo depois, outro e mais outro. Parei, saí do carro e dei sinal pedindo que algum deles parasse. Parou um que era meu vizinho na rua em que eu morava. Perguntei-lhe: você viu aqueles loucos? Vão cair no abismo, disse ele. Então você ouviu a notícia? Sim, ouvi e fui olhar, é realmente grave, nunca tinha visto, você também foi? Não, mas ouvi várias vezes as notícias e vi reportagens terríveis, não se fez nada no início, a coisa foi piorando, agora é tarde, o conserto vai demorar um tempão. E porque é que esse povo continua indo na contramão, só para ver o buraco? Não, é que eles não acreditam que a água tenha levado tudo, acham que é tudo mentira e querem mostrar que podem passar, pra onde eu não sei. Talvez a polícia feche a estrada. É, mas eles são teimosos, são capazes de enfrentar a PM. Aí vai ter sangue, sem necessidade. Parece que eles gostam de mostrar que foram vítimas da polícia e se algum deles morrer os outros vão comemorar, mostrar o cadáver. Bom, se é assim, não adianta mostrar o buracão, eles querem ir pra lá. Mas não é bem assim, chegando lá, sem entender nada de erosão, eles só sabem cavar nas bordas e jogar terra no buraco; a água continua descendo e levando mais terra e o buraco engolindo tudo. Então, quanto mais eles cavam, mais cresce o abismo. É isso mesmo. Que é que a gente pode fazer? Não sei, pode ser que a multidão venha com máquinas e organize todo o terreno, canalize os riachos, leve a água para algum rio. É minha última esperança. Tem uma coisa que eu não entendo. Que é? Nunca aconteceu isso? Já, várias vezes e não foi só aqui não. Então, por que eles não desistem?  Talvez estejam esquecidos, essa estrada só dá mão pra cá, pra lá é contramão, todo mundo sabe. Só eles não sabem? Sabem, sabem... mas são teimosos e vivem sonhando, delirando. Isso vem de longe e é quase uma doença, muito comum por aqui. Ah, bom, então vamos esperar as máquinas.



Escrito por César Garcia às 17h58
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MUDANDO DE ASSUNTO

O PATINHO MANCO                                                                      

                                                                                              22.2.2016

É sabido que o andar do pato é o mais deselegante dos andares de todos os animais. Digo é sabido, mas só vim tomar conhecimento disso muito depois do meu nascimento. Até então, coxo, pensava que só eu andava de modo ridículo. Meus irmãos aproveitavam-se do fato para me torturar e me excluir dos jogos e brinquedos. Meu pai era omisso e minha mãe tentou defender-me até certa idade e então desistiu. Disse-me que procurasse me divertir de outras formas, sem a companhia dos perversos. Não quis aceitar logo, mas acabei convencendo-me de que devia enfrentar o mundo unicamente com minhas forças, pois a maldade existia por todos os lados. O mundo era dos mais fortes, tudo bem, mas se eu não lutasse, esperando por atos solidários de alguém, eu sucumbiria na solidão das pequenas poças d’água. Tratei de prestar atenção aos costumes de outras espécies. Os cavalos carregavam os homens pra lá e pra cá; os cães latiam à toa, ou preocupados, quando alguma pessoa se aproximava; as ovelhas eram tosquiadas a cada verão. Tinham comida garantida, mas sua liberdade era vigiada de perto ou não tinham nenhuma. Eram úteis para os homens, mas não podiam sonhar com uma vida muito diferente. E eu? Poderia ter alguma aspiração? Andava mal, com uma pata mais curta do que a outra; pela mesma razão, nadava meio esquisito, sem muita velocidade; conseguia voar até bem, para um pato manco, e disso me aproveitei para ir além dos limites da lagoa em que morava. Talvez possa dizer que foi minha salvação. Conheci assim muitas lagoas, primeiro as mais próximas, depois outras mais distantes. Conheci patos iguais a mim que nem sempre eram hostis e me aceitavam em seus grupos. Perguntavam como eu conseguira chegar até ali e eu lhes dizia simplesmente: voando. Notei que alguns se surpreendiam porque eu não tinha aparência de grande atleta. Acontece que eles não tinham necessidade de voar muito, viviam bem na própria lagoa, ao contrário de mim, sozinho, sem amigos e com uma família que não ligava muito pra mim. Voar foi, portanto, um recurso decisivo na minha vida. Isto me permitiu desenvolver bem os músculos das asas e do peito. Numa dessas voanças, conheci uma galinha d’água que aprendera a falar a língua dos patos porque havia sido criada entre meus semelhantes. Tinha sotaque, mas justamente daí vinha seu charme. Começamos a nadar e a voar juntos em conversas que se tornaram interessantes porque não víamos as coisas da mesma forma. Por exemplo: eu não tinha medo da morte e ela não queria nem ouvir falar. Expliquei-lhe que depois da morte, não havia nada, não havia o que temer e ela respondeu: é justamente por isso que tenho medo, medo do nada. Ora, para mim, a frase não tinha sentido. Mesmo assim, não havia o que dizer, porque não era uma questão racional. Tive que aceitar seu medo do nada e ela conformou-se com meu jeito indiferente diante do que assombra todos os vivos. Ela gostava de voar sobre as copas das árvores e eu insistia para que ela ganhasse as alturas. Não queria. Cada diferença revelada era uma surpresa objeto de muita conversa. Um dia ela teve sensações estranhas e não quis voar. Escondeu-se entre os juncos deixando-se ficar quase imóvel. Seu jeito de olhar para mim de vez em quando despertou minha curiosidade e me atraiu para junto dela. Ninguém nos via, só o vento sussurrava nos juncos e eu não soube o que dizer, mas compreendi tudo quando ela levantou as penas de sua linda cauda. Algo estava errado, alguma convenção, talvez, mas nosso desejo foi mais forte: deitei-me sobre ela, prendi as penas de sua nuca com meu bico largo e juntei o que havia de mais íntimo em nossos corpos. O êxtase durou pouco e me desequilibrou. Ficamos ali, flutuando, nem sei quanto tempo, sem olhar um para o outro. Finalmente, perguntei: em que estás pensando, e ela, voltando-se para mim, disse: quero que ele nasça com minas longas pernas e com teu bico chato.

 

                                                        FIM



Escrito por César Garcia às 11h43
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POR QUE (TAMBÉM) NÃO SOU CRISTÃO 12

Se não gostamos da cultura ocidental devemos atribuir seus males ao cristianismo, de onde vêm seus valores fundamentais. Ela não se chama judaico-cristã? Aceitar o sofrimento como algo a ser compensado após a morte; valorizar a pobreza como se fosse uma virtude; acreditar numa proteção divina que pode evitar-nos doenças; acreditar em milagres como resultado da intervenção divina em nossas vidas; infundir o sentimento de culpa por desobediência a leis pretensamente divinas; e muitas outras ideias absurdas e sem fundamento, são todas de natureza cristã, causadoras de atraso, obscurantismo, ignorância e mais sofrimento. Só a descoberta de que tudo isso não passa de mentiras e fantasias pode libertar-nos desta caverna. O pensamento livre é o bem mais precioso possuído pelos seres humanos. Renunciar a este privilégio é um ato de covardia que nada pode trazer-nos em acréscimo. Se não há vida eterna, temos plena consciência de nossa finitude e então podemos viver em função de ideias que brotam de nossas experiências, compatíveis com nossos interesses e com os da sociedade. Ao contrário, sabemos de exemplos de pessoas que recusam uma transfusão de sangue por razões religiosas e outras que perdem um concurso público por ser realizado em um sábado; outras degolam inocentes em nome de Alá; sacrifício de crianças em rituais religiosos não é fato inteiramente estranho entre nós. Frutos do delírio religioso.

 

 



Escrito por César Garcia às 15h58
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POR QUE (TAMBÉM) NÃO SOU CRISTÃO 11

Cada vez que a igreja católica proclama a canonização de mais um santo, tendo em vista os milagres ocorridos por sua intersessão, reafirma o desprezo que tem pela inteligência dos seres humanos, particularmente dos seus fieis. Só a indigência intelectual em que vivem as massas de nossas sociedades torna possível a manutenção do poder restante nas mãos de padres, bispos, cardeais e do papa sobre esses indivíduos. Eles (os donos da igreja) não acreditam no que dizem, mas isso, por sua vez, não chega a ser compreendido por suas vítimas. O atual papa, argentino bonachão, demagogicamente chamado de Francisco, ganha simpatia até mesmo em terrenos historicamente hostis aos papas e consegue, com seu sorriso, iludir multidões de boa fé. Bom exemplo de sua desfaçatez é a resposta que deu quando lhe perguntaram se era contra o casamento entre homossexuais: “quem sou eu para julgar quem está em busca de Deus?” Saiu pela tangente como fez Jesus dizendo “daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. A pergunta era evidentemente outra: as almas de dois homens ou duas mulheres que têm relações sexuais entre si podem ir para o céu ou vão fatalmente queimar no inferno por toda a eternidade?  Por mais de dois mil anos o cristianismo condenou relações homossexuais. Agora, com a aprovação do casamento dessas pessoas por parlamentos de alguns países; com os milhares de casos de padres homossexuais e pedófilos; com a divulgação pela internet da história da depravação de cardeais e papas, o sexo começa a ser visto com alguma benevolência. Paulo II, o santo, proibiu aos católicos o uso de preservativos recomendado pela OMS para reduzir o contágio do HIV. Quantas pessoas terão morrido em consequência desta ignomínia?

 

 



Escrito por César Garcia às 13h27
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POR QUE (TAMBÉM) NÃO SOU CRISTÃO 10

As mesquitas mostradas pela TV estão sempre cheias de homens. Talvez lá o islamismo seja levado mais a sério do que o cristianismo entre nós. Nas nossas igrejas predominam as mulheres idosas. Os homens se afastam das práticas religiosas embora continuem dizendo que são católicos, quando indagados. Raros são os adolescentes que desejam ser padres ou freiras e as famílias não se empenham mais em convencer os filhos a seguir a vida religiosa. A Igreja perdeu o poder e a glória apesar das reformas adotadas no intuito de acompanhar a evolução dos costumes. Missas em português, padres sem batina, confissão coletiva, comunhão sem jejum, carne bovina na semana santa, mulheres entregando a hóstia e lendo textos ao lado do padre, missa aos sábados, altar virado para o público, novas letras de hinos, santos brasileiros. O fim do celibato, o uso de preservativos e a ordenação de mulheres ficaram para depois. Sei que as massas continuarão no rebanho, sem coragem de enfrentar os desafios da vida apenas com suas próprias forças. As religiões sempre existiram, mas as igrejas corruptas alimentam a fragilidade, o medo, a ignorância e o fanatismo. Não deveriam contar com a ajuda de recursos públicos.

 

 



Escrito por César Garcia às 16h49
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