Pequeno conto moderno

PARA SEMPRE

 

 

 

            Alvo. Assim se dizia das pessoas de pele branca. Dorian, 12 anos, era alvo e tinha cabelos louros, lisos e repartidos do lado direito, caindo sobre a testa. Boa estatura para a idade, mais para gordo do que para magro. Rosto retangular e olhos castanhos, quase fechados, ria com facilidade, inclinando a cabeça para a esquerda. Na primeira série do que se chamava o ginásio, foi matriculado no colégio dos padres, só para meninos e rapazes. No primeiro dia de aula, os mais espertos notaram. Pelo andar e pela fala, não deixava dúvida. O comentário circulou e na segunda semana todos os alunos já sabiam e prestavam atenção. Começaram as piadas, as imitações jocosas. Não parecia ligar nem se isolava. Aproximava-se de todos os grupos e participava dos jogos e brincadeiras, sempre com seu modo feminino, sem se intimidar diante dos risos, piadas e assovios. Um dia, no recreio, cercaram Dorian e mandaram que ele arriasse a calça. Recusou-se com a frase: ao menos se estivesse duro! Ainda tentaram, mas reagiu e o grupo desfez-se. O padre responsável pela turma gostava dele e às vezes o protegia contra as agressões. Castigava os que exageravam na brincadeira. Ao final do semestre, o caso tinha sido de certo modo assimilado. As piadas continuavam, mas não faziam o mesmo efeito. Dorian impusera-se e ninguém tinha mais prazer em agredi-lo. Dava-se bem com todos, emprestava lápis, borracha, régua – tinha tudo – e ajudava os mais fracos nas tarefas. No início de uma aula, o padre mandou que cada um escrevesse em meia folha de caderno os nomes dos três melhores amigos. Dorian foi o campeão. Estava em quase todas as listas.

            Dos sessenta alunos, apenas um não mofava, não troçava, não tirava onda – como se diz agora. Era Guilherme, um pouco mais baixo, moreno, cabelo liso e preto. Quase não falava. Embora reservado, cortês; e não incomodava ninguém. No ano seguinte, notou-se a aproximação dos dois. Diante da primeira manifestação hostil da parte de Leonardo, o mais agressivo e cruel dos meninos, Guilherme partiu a cara do adversário em luta que durou metade do recreio. Ninguém sabia de suas habilidades combativas cultivadas em academia de jiu-jítsu. Os dois foram suspensos por uma semana. Na volta às aulas, foram chamados à diretoria onde ouviram do padre diretor uma longa advertência e uma ordem para que pedissem desculpas mútuas. Fez efeito. Agora, não somente Dorian, mas a dupla se impusera. Sentavam-se lado a lado e andavam juntos no recreio. Uma ou outra pilhéria dos mais renitentes já não os ofendia, e até deixava o autor sem graça. O problema agora era com os padres. Primeiro, foram separados na sala de aula; no ano seguinte, em turmas diferentes. Soube-se que o diretor conversou inutilmente com os pais dos dois, que se sentiram ofendidos e ameaçaram tirar os filhos do colégio.

            Até o fim do curso científico – assim se chamava – a dupla manteve-se unida. Sete anos de convivência, amizade e aprendizado. Ouviam as conversas sobre namoro e primeiras conquistas apenas sorrindo, até com certo ar de superioridade. Ao deixarem o colégio, ingressaram no curso de Direito. Os demais colegas dispersaram-se, tomando cada um seu rumo na vida.

            Cinqüenta anos depois, o maior jornal da cidade noticiou:

 

Beneficiados pela nova lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo, Dorian Mendes e Guilherme Barreto, ambos com 68 anos, celebram e oficializam sua união hoje às dezesseis horas no fórum.”

 

            Comprei flores e dirigi-me ao local. Após a cerimônia, ambos de terno branco, recebiam os cumprimentos alegres de seus amigos e amigas, todos desconhecidos para mim. Aproximei-me em silêncio e postei-me diante deles. Dorian de cabelos brancos e Guilherme inteiramente calvo. Fitamo-nos por alguns segundos. Terminaram me reconhecendo sem que eu falasse, e gritaram meu nome ao mesmo tempo. Permanecemos abraçados longos minutos e receberam as flores sob os olhares curiosos e mesmo ciumentos dos amigos em volta.

            Participei da festa colorida até o fim e fiquei mais duas horas ouvindo a história dos dois e contando a minha entre risos e até algumas lágrimas por colegas que tinham morrido e por dramas e tragédias que atingiram alguns deles.

            Despedimo-nos trocando números de telefone e endereços eletrônicos.