Blog de César Garcia


 
 

Conto da semana

 

MANDAROVÁ

 

 

 

            Quando te deste conta, já tinhas sete anos. Ao contrário dos outros, até então,  nunca me havias perguntado nada. Parecias aceitar a vida como ela era, sem desconfiar que podia ser diferente. Achavas natural que os garotos menores fossem à escola e tu, não. Pelo menos era a impressão que me davas. E eu não sabia por onde começar. Deixava o tempo passar, à espera de uma pergunta. Teu silêncio me poupava o trabalho de explicar-te o difícil. Um dia após teu sétimo aniversário, surpreendeste-me:

            - Madrinha, por que meu nome é Mandarová?

            - Não gostas do teu nome?

            - Os meninos mangam; dizem que é nome de lagarta, é verdade?

            - Tem gente que se chama Coelho, Bezerra, Leão, Carneiro.

            - Então é verdade.

            - Querias ter outro nome?

            - Quero saber por que meu nome é de lagarta.

            - Bem, é uma história que começou quando chegaste aqui, ainda bebê. Tinhas grande apetite, comias com gosto, ao contrário do que acontece com muitas crianças. Uma cozinheira disse "esse menino come que só um mandarová". Ninguém sabia o significado, então ela explicou: "é uma lagarta". Todos riram, mas ninguém tinha a intenção de chamar-te assim. Como ainda não tinhas nome, no outro dia ela repetiu e foi o suficiente. Com o tempo, teu nome tornou-se natural, não parecia mais estranho. Tu mesmo te acostumaste. Na tua certidão está escrito José Mandarová do Nascimento.

             Lembras de alguma dessas frases? Agora, tanto tempo depois daquela conversa, queres novamente saber de onde vêm teu nome, os de teus pais, por que não foste à escola, por que não comes à mesa com a família. Pois bem, nem todos nascem em família organizada, com conforto e segurança. Foi o teu caso. Tua mãe não tinha emprego, vivia da caridade dos outros. Grávida, pediu de casa em casa que te aceitassem. Meu coração impediu a recusa; minha cabeça impôs condições. Não te adotei, não te dei um nome, não te tratei como filho. Apenas te acolhi. Nos primeiros anos já exibiste tuas limitações. Foste alimentado, vestido, tratado e educado de forma diferente. Não igual a meus filhos. Quando pequenos, eles brincavam contigo, mas eu sempre notava que eles te consideravam inferior; achavam-se com direito a te dar ordens e teus papéis nos jogos eram sempre os mais rudes, os mais pesados. Agora referem-se a ti como um empregado especial, a meio caminho entre um escravo e um membro da família. Confesso que este assunto não é pacífico em minha mente, porém não consigo agora, passado tanto tempo, imaginar definição melhor para tua posição nesta casa. Quero-te bem, tu sabes, e se quiseres continuar assim, terás minha proteção até o último dos meus dias. Disseste há pouco não teres nenhuma queixa quanto a tudo isso. Tua inquietação é outra, bem sei. Chegaste a uma idade em que outras questões começam a ser mais importantes que a sobrevivência. Bem pouco posso fazer além do que já fiz. Não há como saber a origem de teus pais, nem sequer seus nomes. Tens que criar teu mundo, em que serás o primeiro homem. És teu Adão; procura tua Eva. Uma que não precise mais do que tu podes dar-lhe e seja capaz de elevar-te acima do teu chão. Se quiseres, continuarás fazendo as tarefas a que estás habituado em minha casa e te retribuirei com dinheiro. Somado ao que tua mulher poderá ganhar, será suficiente para fundarem um novo lar, na medida das possibilidades dos dois. Terás de substituir tuas preocupações atuais por outras mais práticas. Preferia que não tivesses filhos, pois essas coisas se herdam, entendes? Deves evitar mais sofrimento, já basta a humilhação que sentes. Se a natureza te deu tão pouco, nada terás para dar a filhos. Assim penso eu; pareço cruel, é verdade, mas pelo menos sou sincera. Compreendo tuas necessidades. Precisas de uma mulher e creio que poderás amá-la, pois tens bom coração. Não creias na primeira que aparecer; tem paciência, pois tens tempo de sobra para escolher. E mesmo assim, é sempre arriscado. Infelizmente, a convivência revela o lado ruim de todos nós. Mas a vida é assim. Não poderás evitar de todo o risco, porém tenta reduzi-lo ao mínimo. Estás na idade em que tudo se torna um desafio, nada é previsível. Queres uma companheira? Trata de buscá-la. Terás o prazer a teu alcance, e também perderás a liberdade. Escolhe: ou isso ou aquilo. Só te recomendo, repito, que não tenhas filhos. Raras mulheres, bem sei, aceitam esta condição. Mas a vida é tua, faz o que quiseres. Se continuares aqui, casado ou não, disporei de teu trabalho, tua presença silenciosa e tua passividade. Não nego que muito usufruí de tuas qualidades e sei que me tens gratidão. Minha idade me diz que morrerei antes de ti. Aproveita, pois, enquanto estou viva, e agradece-me ter-te salvo da miséria e da fome. Também te agradeço pelos serviços que me prestaste e ainda prestas. Nesses dezoito anos foste testemunha de acontecimentos importantes em nossa família sobre os quais me prometeste guardar absoluto segredo. Conto com tua fidelidade mesmo após minha morte que, espero, esteja muito distante. Refiro-me especialmente ao acidente com minha nora. Eu tinha razões de sobra para fazer o que fiz e não me arrependo. Como foste meu cúmplice, também tens motivos para manter a boca fechada até o fim de tua vida. Cumpri rigorosamente a minha parte e estou certa de que cumprirás a tua. Tentei convencer a menina de que ela não era dona do meu filho. Nem precisava dizer isso, tu conheces boa parte da história. Sabes muito bem até que ponto tolerei as tentativas dela de afastar meu filho de mim. Eu estava disposta a ceder espaço suficiente para ela. Não entendeu, ou pensou que poderia me derrotar; queria tudo, mal sabia com quem estava lidando. Assim acontece com quem não sabe reconhecer seus limites, pensa que a ousadia da juventude é mais forte que a experiência dos mais velhos. Resultado: quis tudo, e tudo perdeu. O sofrimento de meu filho passou e ele continua meu, como sempre. Escuta o que vou te dizer: tudo correu bem, mas temos um ponto fraco, e está dentro de nós. Tudo viria abaixo se  um  traísse o outro. Tenho mais poder do que tu, e muito mais a perder, é claro. Mesmo assim, dependo de ti para manter minha felicidade junto a meu filho. Sabes de quase tudo, desde  o momento em que viste o que não deverias ter visto. Eu precisava da tua cumplicidade não só para fazer o que tinha de ser feito, como também para que tua vida dependesse do meu silêncio. Tuas limitações não te impedem de compreender a importância desta conversa. O resto, o interesse pela tua origem, é supérfluo. Sê mais prático, pensa no futuro, o passado não volta. Casa-te, mas tem cuidado com a curiosidade feminina. Preservei meu direito sobre meu menino e agora é tua vez de buscar o prazer.



Categoria: Contos
Escrito por César Garcia às 16h02
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O INFERNO

Dia 10 (quarta-feira) encerraram-se as atividades da Oficina de Criação Literária Clarice Lispector, organizada pela escritora Lourdes Rodrigues. Foi concluída a leitura do Inferno de Dante, com muito proveito. A confraternização ocorreu no restaurante VERDICCHIO, em Parnamirim. No próximo ano será lida a obra FAUSTO, de GOETHE.



Categoria: Crônicas
Escrito por César Garcia às 15h28
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Poesia

Foi lançado no dia quatro deste mês na Livraria Cultura o livro DO JEITO DELAS, vozes femininas de língua inglesa, organizado por Márcia Cavendish, Carlos Eduardo Fialho e Sueli Cavendish. A obra contém ensaios dos organizadores e poemas traduzidos por Jorge Wanderley das seguintes autoras:

Sylvia Plath - Anne Sexton - Emily Dickinson - Hilda Doolitle - Marianne Moore - Louise Bogan - Elizabeth Bishop - Denise Levertov - Edna St. Vincent Millay - Edith Sitwell - Patricia Hooper - Elinor Wylie.

Trata-se de seleção cuidadosa do que há de melhor em poesia escrita por mulheres de língua inglesa, trazendo, além da tradução, o original em inglês.



Categoria: Dicas de livros
Escrito por César Garcia às 15h14
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Contos de fadas

A edição nº 20 da revista Discutindo Literatura traz uma interessante matéria assinada por Maria Cecília Amaral sobre os contos de fadas. Transcrevo um trecho:

"Os contos de fadas não foram escritos para crianças ou para transmitir ensinamentos morais. Originalmente concebidos como entretenimento para adultos, os contos de fadas eram contados em reuniões sociais, nas salas de fiar, nos campos e em outros ambientes onde os adultos se reuniam. As histórias traziam doses fortes de adultério, incesto, canibalismo e mortes hediondas.

Numa das primeiras interpretações de A Bela Adormecida, o príncipe abusa da princesa em seu sono e depois parte, deixando-a grávida. Os contos de fadas que contêm lições são creditados a Perrault, cujas histórias vêm acompanahadas de divertidas 'morais', muitas delas, até mesmo, em forma de rimas."



Escrito por César Garcia às 23h55
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