Blog de César Garcia


 
 

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Opinião de Edgar Allan Poe:

" A consideração inicial, foi a extensão. Se alguma obra literária é longa demais para ser lida de uma assentada, devemos resignar-nos a dispensar o efeito imensamente importante que se deriva da unidade de impressão, pois, se requerem duas assentadas, os negócios do mundo interferem e tudo o que se pareça com totalidade é imediatamente destruído".("A Filosofia da Composição", 1986, p.812)

Colhido em webartigos.com



Categoria: Frases
Escrito por César Garcia às 13h11
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Conto da semana

VOCAÇÃO DE ATOR

 

 

 

         Leu biografias de atores, matriculou-se em cursos e acabou estreando em peça de teatro com o nome de Elias Autran. Saiu-se bem e estreitou  laços com os companheiros de palco. Foi apresentado a membros de outros grupos, freqüentou os cinemas o mais que pôde e, em casa, diante do espelho, imitava os ídolos. Terminado o ensino médio, Elias entrou no curso de dramaturgia da universidade e levou à frente seu projeto, enfrentando a resistência do pai. Após o curso superior, considerava o teatro uma etapa vencida e pensava no cinema como realização profissional. Desempenhou papeis em filmes de curta metragem, feitos por colegas. Via as principais novelas da TV, prestando atenção aos  atores consagrados. Já não se tratava apenas de um sonho, julgava-se um ator ainda desconhecido, mas a caminho do sucesso.

         Submeteu-se a testes e logo foi convidado a trabalhar em novela para a TV. Foi aí que conheceu Lígia. Iniciantes, apaixonaram-se durante as gravações. Guardaram discrição, por conveniência. O diretor podia não gostar, formavam o casal da história. Ouviam dele e dos mais antigos: é preciso fingir que há emoção, quem deve emocionar-se é o telespectador. Como fingir se realmente sentia? Tentou esconder. O diretor gostou das cenas, eram convincentes – elogiou. Nas locações e no estúdio estavam sempre separados, trocando sofridos olhares. Encontravam-se fora dali e nunca nos bares freqüentados pelos atores. Esconderam a novidade até o fim das gravações.        

          Agora todo mundo já sabia, moravam juntos. O sucesso chegou e Lígia foi convidada para outra novela. Elias também, porém não como seu par, na história. O papel coube a outro ator, mais velho, como convinha. Comemoraram com os amigos em jantar alegre. Na volta para casa, Lígia falava mais que Elias, concentrado na direção do carro. A vida parecia acelerada, frases da conversa no bar se misturavam a lembranças dos pais e irmãos no momento da decisão de sair de casa. Em um ano, tudo mudara. Olhou para Elias, passou o braço em volta do seu pescoço e deu-lhe um beijo na face. Elias sorriu em silêncio.

         Na manhã seguinte, saíram apressados, para o trabalho. No carro, Lígia disse:

         – Amor, acho que estou mais feliz que você. Minha surpresa é maior que a sua. Não esperava que tudo acontecesse assim, tão rápido. Sabia que você  seria logo chamado, é o queridinho das adolescentes, mas, não contava que me dessem esse novo papel, é a novela do horário nobre.

         – Estou tão feliz quanto você. Não só por ter um novo papel, mas por ver você brilhar. Era tudo que eu queria.

         – Não sei. Desde ontem tento entender o que você sente. Sei que você vibra com minha conquista e com a sua também, mas o rosto, a voz, o olhar, me dizem que há alguma nuvenzinha, um grão de areia, não sei... , fala!

         – Não há nada, como poderia não estar feliz? Nós nos amamos, tudo deu certo até agora, só temos alegria.

         – Tudo bem. Realmente não temos do que nos queixar. Vamos ao trabalho.

         Quando soube que em várias cenas apareceria montado em um cavalo, Elias adorou a notícia. Lembrou a infância na fazenda do avô, em longas cavalgadas acompanhando o vaqueiro. Sentia-se à vontade, montado, e sabia comunicar-se com um bom animal. Lígia não perdia oportunidade de elogiar o modo espontâneo como ele galopava, controlava os passos do cavalo e parecia colado à sela.

         Elias não esteve presente à gravação da primeira cena em que a personagem de Lígia encontrava seu amante. Quis saber apenas se tudo correra bem, ao que Lígia respondeu que sim, que o ator com quem contracenava era experiente, ajudava a encontrar os melhores gestos, as melhores expressões. Estava empolgada. Perguntou como ele tinha se saído. Tudo bem – ele disse.

           



Escrito por César Garcia às 00h45
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(continuação)        

No outro dia, Lígia gravou cenas de beijos com o galã, na presença de Elias. Terminado o trabalho, já em casa, era evidente o mal estar. Nenhum dos dois encontrava uma palavra, uma pergunta para iniciar a conversa. Lígia segurou o rosto de Elias com as duas mãos e aproximou os lábios.  Ele recuou e afastou as mãos de Lígia. A moça sentou-se ao sofá numa atitude de desânimo e as lágrimas começaram a correr.

         – Que foi que houve, Elias?

         – Você está cheirando a cigarro.

         – Elias, é meu trabalho, não sinto nada. Pura ficção. Tenho apenas que fazer o melhor possível, a cena deve ser perfeita para parecer real, você sabe disso e já beijou atrizes, nunca senti ciúme porque sei que aquilo não é real, diante de muita gente trabalhando, com câmeras, luzes, tudo falso.

         – Sei de tudo isso, mas não é possível fazer de conta que não é você que está beijando. Além disso, como vou saber o que o ator sente?

         – E você, querido, sentia o quê, quando beijava uma atriz no palco?

         – No teatro era diferente, não havia close, não precisava de tanto detalhe. Na TV, eles querem beijo de língua, olhos fechados, respiração ofegante, tudo.

         – Meu amor escute: você é ator, eu sou atriz. Se amamos nosso trabalho, temos que aprender a vê-lo objetivamente. Um cirurgião não pode emocionar-se retirando um coração de dentro de um paciente, cometeria erros. Nós também não podemos sentir o que queremos que o espectador pense que sentimos. A cena só parece verdade se for mentira, você não aprendeu isso? Eu beijo o personagem, não o ator. Não é isso que acontece com você?

         – Talvez seja diferente. Eu beijo pensando em você.

         – Pois não devia. Você deve pensar na personagem. Se pretendemos trabalhar para o cinema, temos que estar preparados porque lá as cenas vão mais longe. Que  será de você, vendo-me nua em cima de uma cama, abraçada com um ator também despido? Quantas vezes vimos cenas como esta no cinema? Aquelas pessoas amam outras, não sentem nada do que parecem sentir.

         – Daqui a pouco você vai dizer que nos filmes de sexo explícito...

         – Vou dizer agora: ainda que tenham orgasmo, não estão sentindo nada!

         – Chega, Lígia! Você está brincando ou enlouqueceu. Não se importa que eu tenha orgasmo com outra mulher? Distinguir a tal ponto  fantasia e realidade é outra fantasia. Aquilo ali é tão real quanto a realidade. Do contrário, o real também é pura fantasia e então tudo seria fantasia, não pode. Não há dois mundos, há um só, e é real.

         – Amor: você conseguiu confundir-me. Sei apenas que existimos, nós dois, Lígia e Elias, que nos amamos e somos atores. Encarnamos personagens fictícios durante uma gravação ou num palco. Ali, devemos fazer tudo o que essas personagens fazem na obra de ficção. Emprestamos nossos corpos, nossas vozes e, só aparentemente, nossas almas.

         – Responda: se uma personagem mata a outra, devemos matar nosso colega ator?

         – Não. Novamente você me confunde. Um faz de conta que mata; o outro finge que morre. É isto, a arte cênica. Não é real, mas emociona o público.

         – Aí está. A bala é de festim, o beijo, não.

         – Pois se é assim para você, querido, sinto muito, mas você deve procurar outra profissão e outra mulher, porque, neste caso, vou sentir-me traída cada vez que você beijar alguém em cena.

         – Você tem razão. Para ser ator, é preciso ter vocação. Vocação para corno.

         – Você está errado. Precisa ter alma de ator. Você não tem, você é real no pior sentido que a palavra pode ter.

         – Que sentido é esse?

         – Não sei dizer, mas deve existir. Também não sei dizer o que é eletricidade, mas ela existe.

         – Agora é você que me confunde.

         – É simples. Você é uma pessoa, eu sou outra. Isto é muito mais importante do que parece ser. Ao contrário do que você pensa, o mundo não é um só. Há infinitos mundos. Cabe a cada um escolher o que mais lhe agrada.

         – Você acaba de me dar uma ideia. Antes de nos separarmos, que tal fazermos um curta com o diálogo que acabamos de representar, palavra por palavra?

         – De acordo, mas acho que a separação deve acontecer antes, para poder ser narrada.

         – Negativo.  Separados, não faremos mais o filme. Prefiro que a separação ocorra  na última cena, cada um saindo em busca de seu mundo, como você diz. 

         – No filme, ou na vida real?

         – Nos dois. Ao mesmo tempo.



Escrito por César Garcia às 00h41
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Não é ficção

Há 14 dias não publico nada aqui. Fui ao sepultamento de um jovem (31 anos) brilhante funcionário do Banco Central em Brasília. Sentiu dor de cabeça, foi internado, fez exames e faleceu sem diagnóstico. A Medicina também tem limites, lembram de Tancredo Neves? Para viver setenta anos, quantas vezes passei, sem perceber, por perto da misteriosa dama? "Para nascer uma pessoa, duas são necessárias; para morrer, basta uma." Salvo engano, está em PRIMEIRO AMOR, de Samuel Beckett. Inês, personagem de A CAMINHO DAS ÍNDIAS, pergunta: "qual é o rap?" Respondo: tem sido a morte. Queda de avião, atentado suicida, bombardeio, latrocínio, acidente de tráfego, guerra tribal, quadrilhas de traficantes. Vamos voltar para a ficção.



Categoria: Crônicas
Escrito por César Garcia às 23h47
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