Blog de César Garcia


 
 

SOBRE O AMOR

SOBRE O AMOR

 

 

Alguém se arrisca? Há milhares de anos as tentativas de definir o amor se sucedem. Filósofos, poetas, romancistas, psicólogos, psicanalistas, até neurologistas e, mais que todos, os enamorados, aqueles convencidos de que amam. Ouso perguntar: a mãe ama o filho? O filho ama a mãe? O homem ama a mulher? A mulher ama o homem? O amor está sempre misturado com desejo, insegurança, medo, interesse, sadismo. Às vezes o sujeito não sabe: amo ou não amo? Que sentimento é esse que deixa a pessoa em dúvida? Ninguém tem dúvida se está com raiva, tristeza ou ódio. Fica difícil dizer o que é o amor. Talvez por isso mesmo seja assunto eterno. Sempre haverá produção de poemas, contos, crônicas, romances, novelas, ensaios sobre o amor. Fala-se até do amor a si mesmo e do amor a Deus. Coisas tão distintas têm algo em comum? Ainda que de modo apenas metafórico, também se fala do amor entre os animais, pode? O amor está ao alcance de todos, ou é “privilégio de maduros” como disse Drummond? A amizade entre dois homens é amor? Só é amor se houver desejo?

 

 

Alain Miller: “Ama-se aquele ou aquela que conserva a resposta, ou uma resposta, à nossa questão ‘quem sou eu’?” Isto serve para qualquer tipo de amor?



Categoria: Crônicas
Escrito por César Garcia às 12h06
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CONTO

A CANOA

 

                                                                                                  C.G.  5/4/14

 

 

– Eu disse, doutor: é muita gente pra essa canoa, ela faz água, pouco, mas faz. O mais afoito era o S. Lula, um homem grande, parecia entender de tudo. Gostava de pescar e de caçar. Não tinha besteira, falava com todo mundo, era muito querido aí pela foz do rio. Fazia muita pergunta, queria aprender tudo. Ia à minha casa e eu ia à dele. Quando precisei, ele me ajudou e tinha consideração. Contava histórias do passado dele, um homem muito vivido. Andou no estrangeiro e leu muitos livros. Uma vez, na fazendinha dele, botou uma pistola Mauser na minha mão e disse que eu podia atirar num alvo qualquer. Dei dois tiros e errei os dois, ele riu. E outro dia, noutra fazenda, me entregou uma espingarda 12, cano duplo e fomos caçar na lagoa. Morri de vergonha porque os patos passaram voando sobre a minha cabeça e eu não atirei porque a arma estava travada. Ele apenas sorriu. Então fomos pescar no meio da lagoa. Durante duas horas, pegamos só duas pescadas pequenas. Fomos almoçar e voltamos para a canoa. Em menos de uma hora pegamos cinquenta e oito pescadas. Era iscando e fisgando, um cardume. Ele voltou satisfeito, mandou preparar peixe pra todo mundo que estava na casa dele.

– S. Antônio, vamos voltar para o acidente. Quem estava mais, além do senhor e do S. Lula?

– O amigo dele estava com a mulher e os dois filhos, me admirei de concordar de ir. É quando as coisas têm de acontecer. Não sei se Deus quer esses acontecimentos, mas acontecem. Tem gente que não tem coragem de ter medo e faz. Eu disse: é longe, a gente vê assim pensa que é perto, mas é longe. Quem sabe é quem rema. Desde menino eu remo ali, atravessando o rio. Ninguém deve confiar na água, o povo diz que ela não tem cabelo e não tem mesmo não, o povo diz. Eu já tive que sair nadando até a terra, outra vez, faz tempo, eu era moço, me atrevia. Dessa vez, eu avisei, mas os dois homens e a mulher disseram que eu estava com medo. Não era medo, era o costume de ver a dificuldade, mas eles quiseram ir, eu fui. Comecei a remar e o S. Lula ia na proa, bem animado. Os dois meninos com a mãe, ali no meio, sentados. O pai deles perto de mim, quase na popa. Ventava pouco, mas a maré estava subindo, ali é água do mar quase pura. Na metade do caminho, eles começaram a tirar água com uma cuia. Tiravam, mas entrava. Eu forcei a remada tanto que pude. O vento correu mais forte, a marola cresceu e às vezes a água entrava por cima. Eles tiravam água com as mãos, todos, até os garotos de uns sete anos. Por isso a canoa balançava e eu dizia pra não se levantar, podia cair pra fora. Eles todos começaram a se aperrear e o pai dos meninos dizia calma, calma, a mulher começou a chorar. Eu não falava mais, só remava e a canoa cada vez mais pesada. Ali, eu já sabia que não dava pra chegar, mas continuava remando sem quase nenhum resultado. Eu não podia abandonar o povo até a canoa afundar. Quando isso aconteceu, não dava vinte metros para a margem e todos nós começamos a nadar pensando só nos meninos, mas eles eram danadinhos nadando, ao lado da mãe. S. Lula gritava, nadando mal. O pai foi o primeiro a tomar pé e puxou os dois filhos. A mãe chegou sozinha. Eu cheguei distante porque aproveitei a correnteza. Ouvi os gritos "nada, Lula, nada, falta pouco, pelo amor de Deus, Lula, respira, vem de costas, Lula, Lula!" Cheguei correndo, mas ele já tinha afundado. Que é que eu podia fazer? Ficamos uma meia hora esperando ver se ele aparecia, mas eu sabia que só no outro dia. Foi o que aconteceu. Tive pena, eles choravam muito, mas não botaram a culpa em mim. Talvez porque conheciam bem o amigo, sabiam como ele era afoito, decidido. Saímos andando até encontrar um conhecido meu que tem propriedade na beira do rio. Ele levou todo mundo na camionete pela ponte até a casa do falecido. Eu fui também pra ninguém dizer que eu tinha fugido. A mulher dele e dois filhos receberam a notícia. Nem queriam acreditar, diziam que ele sabia nadar. Ninguém sabia o que fazer, só gritavam e choravam, abraçados, repetindo a história. Fui embora pra casa, triste. Contei tudo à minha mulher. Ela achou que o doido era eu que conhecia o rio e a canoa. Começou aí meu maior sofrimento. Não tive mais uma noite de sono, acordo com pesadelo, me afogando. Sem poder trabalhar, fico na beira do rio, só olhando. Penso que não tive culpa, mas fico com medo que a alma dele queira se vingar. Eu avisei que a canoa fazia água e ele quis atravessar de todo jeito. Agora eu sei que não devia ter aceito, mas na hora, ele, o amigo e a mulher entraram na canoa e chamaram os meninos. Eu vivia dessa canoa que é, quer dizer, era meu trabalho. Perdi meu ganha-pão e podia ter morrido. E ainda perdi meu sossego, porque não consigo tirar o assunto da minha cabeça. Pra piorar, minha mulher não me aprovou, disse que eu errei. Só resta pedir perdão a Deus, porque não sei se diante dele tenho culpa ou não. Às vezes comparo os homens com os bichos e vejo como é difícil a nossa vida. A gente tem que trabalhar muito para comer, vestir e morar. Para os bichos tudo está pronto no mundo, pra nós não. E ainda por cima basta cair de um galho de pau que ninguém sabe voar; se cai na água, morre afogado porque nem todo mundo sabe nadar. Se tudo der certo, a gente envelhece e termina morrendo de alguma doença. Todo mundo tem seu dia, o de S. Lula  foi aquele, para a minha desgraça. É a primeira vez que me apresento numa delegacia e peço ao senhor que compreenda minha situação. O senhor sabe onde moro e pode me chamar se quiser fazer mais perguntas.

– O senhor não vai ficar preso não, S. Antônio. Você é conhecido nessa beira de rio e, se precisar, não vai ser difícil encontrar você. Mas não se afaste, não se esqueça de que um homem morreu porque sua canoa afundou. O senhor não quis matá-lo, mas o fato é que ele morreu deixando viúva e quatro filhos. Vou interrogar outras pessoas e depois enviar o inquérito para a Justiça. Pode ir.

 

      Antônio saiu, parou numa venda para tomar uma cachaça. O dono da venda disse: – E então, S. Antônio, que desgraça, hein! Antônio baixou a cabeça e não respondeu. Saiu calado e tomou o rumo de casa sem olhar para ninguém. Baixou a aba do chapéu de palha e apressou os passos. Já no terreiro de casa, sentou-se no banco tosco, feito de coqueiro e ali ficou, pensando nas ondas da vida. O cachorro veio andando devagar e deitou-se a um palmo dos seus pés. O vento era brando, mas Antônio achava que ia se agitar porque as palhas dos coqueiros mais altos já davam sinal. O sol já descera e logo mais a noite sem lua cobriria toda a paisagem. Achando estranho que Laurinda não tivesse aparecido na porta, Antônio chamou-a. A mulher veio e ficou em silêncio, em pé. Antônio disse baixinho: – Senta aqui, mulher. Permaneceram calados durante vários minutos, até que Laurinda disse – Que é que tu quer? O marido demorou a responder e acabou resmungando: – Tu acha mesmo que eu tive culpa? A mulher também demorou a responder, mas terminou dizendo: – Tem e não tem. Tem culpa, mas foi sem querer. – Se foi sem querer, porque é que eu tenho culpa? – Porque tu sabia que a canoa não ia aguentar. – Eu sabia que a canoa era fraca, mas não sabia que ela ia afundar. – A gente não sabe o que vai acontecer, mas desconfia. – Então tu acha que eu sou culpado. – Não, tu é e não é. – Não pode. A pessoa é ou não é. – Quem te disse que o mundo é assim? Tem muita coisa que vem e não vem, vai e não vai, sobe e não sobe. – Só na tua cabeça de mulher; na minha, é ou não é e o delegado é homem, como eu. – Mas o juiz poder ser uma mulher e pode pensar diferente. – Mas se eu for e não for culpado, eu vou e não vou ser preso? – Aí, só quem sabe é a juíza, ou juiz. Tu tem que ter calma e esperar, não adianta ficar assim, triste, como se tivesse sido condenado. Levanta, vem tomar café.

      Antônio foi. Comeu batata doce e tomou café. Fumou um cigarro já deitado na rede e Laurinda disse apenas: – Dorme, amanhã tu vai acordar melhor. Fechou a porta e a janela, apagou a lâmpada e deitou-se na cama.

      Durante as semanas seguintes Laurinda lavou roupa de outras casas e Antônio fez pequenos serviços. Teve que se apresentar de novo ao delegado e ao fórum com um defensor público e a tristeza só aumentava. Daí em diante, falava cada dia menos, dormia mal e perdia peso. Parecia não escutar o que a mulher falava e se ela insistia, Antônio se zangava, saía andando a esmo e acabava sentando-se no mesmo lugar em que antes amarrava a canoa. Dizia palavras desconexas e só voltava a casa quando Laurinda ia buscá-lo. Uma amiga que morava perto levou ovos de pata, "bons para quem está ruim da cabeça". Antônio comeu um por dia, mas continuou ausente, calado, sem ânimo e Laurinda viu que ia perder o marido. Levou-o ao posto de saúde onde um médico receitou um medicamento que nem chegou a ser comprado, por falta de dinheiro.

      Dias depois, Antônio levantou-se da rede cedo com uma expressão diferente no rosto. Laurinda perguntou – Tá melhor, Tonho? Não respondeu e saiu em direção ao lugar de sempre, na beira do rio. Avistou sua canoa amarrada no pau fincado dentro d'água. Apressou os passos e, ao aproximar-se, viu diante de si, a poucos metros, a  corda desfazer-se e a correnteza levar sua canoa. Antônio nem pensou: nadou na mesma direção até que suas forças se exaurissem.

 



Categoria: Contos
Escrito por César Garcia às 09h57
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